É possível falar de saudade sem falar de vida e morte coexistindo?
Suponho que haja várias interpretações e variações do amor que a contemplem, e em todas elas haverá o fragmento dual de amor e dor: amor por tudo que foi vivido — os risos, abraços, conselhos, tropeços, os ônus e bônus que a vida proporcionou — independentemente da circunstância ter sido cortada de forma abrupta pela tragédia da dor da ausência, pelo abismo e eco de vazio criado agora pela inexistência, marcado pelo fim.
Kübler-Ross (2004, p. 70), de forma célebre, escreveu:
“Se você verdadeiramente quer aprender e crescer, é preciso compreender que o universo o matriculou no programa de pós-graduação da vida, que se chama perda.”
Dizem que sofremos não pelo fim em si ou pelo porquê o outro se foi — pois ele permanece em nós — mas por termos morrido na história dele; não haverá nossa continuidade ali. Isso soa, e me soou, egoísta na primeira vez que ouvi. Mas, ouvindo com maior sensibilidade, entendi que, nesse fechamento — seja em vida ou em instância emocional — o que fica ao “abandonado” é a demanda de aprender a lidar e reaprender uma nova forma de viver, estando ciente de que não haverá novos adendos ou complementos.
O que torna difícil é termos a mania de sempre esperar e querer um pouco mais do que é bom.
Nem sempre nos contentamos com orientações generalizadas, como a de que fechamentos são importantes para dar espaço para o novo entrar.
“Mas e quando não queremos?”
A gente não precisa querer e nem estar pronto. Na vida, só parte é livre-arbítrio; o restante é adaptação.
Saindo do campo regularmente fantasioso e otimista, não necessariamente o que vier será melhor ou trará significativa transformação. Pode ser apenas continuidade da vida. A gente também espera por grandes iluminações cheias de sentido que podem não vir. Nem todo fechamento será satisfatoriamente justificado — e isso é importante de constatar.
Justificar tem o conectivo de justiça. Queremos que seja justo. Buscamos por isso. E quando ela não existe, nos fincamos com unhas e dentes no apego:
“Não posso deixar ir.”
“Não posso esquecer.”
Essa carga pode ser pesada o suficiente para paralisar — e isso, sim, impede que a vida siga seu próprio curso.
A saudade se manifesta de um jeito diferente. Não é que ela não doa, não é que não possa ter fragmentos tóxicos nela. Mas uma saudade mais equilibrada reconhece; não nega nenhuma parte. Acolhe o todo — inclusive o futuro, o que ficou e o potencial do que se pode ser feito e vivido a partir de então.
Não tem a ver com abandonar.
Não tem a ver com negligenciar.
Não é pegar tudo e jogar para debaixo do tapete e nunca mais olhar porque dói.
É se dar a oportunidade de agir apesar de.
Viver apesar de.
Pensar apesar de.
Se expressar apesar de.
Continuar apesar de.
Como a saudade está sempre atrelada a algum tipo de luto — bereavement, palavra cuja raiz significa “ser despojado de” ou “ser rasgado” — o fechamento, o fim, se honra então a vida na continuidade.
Saudade



